
Choveu.
Não daqueles dilúvios avassaladores do verão, que derrubam o calor em um tapa. Daquelas chuvinhas como-quem-não-quer-chamar-a-atenção, mas que trazem consigo aquele frio de dias vazios. Fruto de região litorânea, acostumei-me com chuvas constantes, com o chover fininho que se estendia por semanas e meses. Muitos dos resfriados de infância foram adquiridos de ficar sentada no chão próxima a porta de vidro, molhando os dedos na chuva.
No planalto não chove. Faz frio, um vento que mergulha na alma e inquieta. Um frio que não aquece nem com todo o chá disponível.
Mas hoje choveu. Mais por dentro do que por fora, provavelmente. E não fez frio, embora ventasse muito e a janela de vidro da sala de aula assoviasse sinistramente a noite .
O planalto tem flores, é verdade. Os ipês, tão comuns (quase banais de tão comuns). São lindos, do florescer até o cobrir do chão em tapetes. Não me lembro de ipês no litoral.
Os animados gostam do verão, os melancólicos gostam de outono (além das grifes com suas malditas coleções em tons de ameixa e chocolate nas coleções “outono-inverno”) e todos os outros gostam do inverno. Eu gosto da primavera.
É tempo de florescer, de renascer dentre os sedimentos de outras estações. É tempo das últimas mudanças.
Sim, é tempo de mudanças. Não que elas não aconteçam o tempo todo, todos os dias, no inverter o trajeto de casa ao ponto de ônibus ou no arrumar do armário. Mas se houvesse um tempo exato para as maiores mudanças acontecerem, seria este.
O calor virá, os dias serão claros e as manhãs, perfumadas e ligeiramente barulhentas. É tempo de guardar os edredons e, se as alterações climáticas do aquecimento global permitirem, guardar os casacos no armário de novo.
Que chova infindamente e irrigue os corações.
Floresçamos.
“Primavera é tempo de ressurreição. A vida cumpre o ofício de florescer ao seu tempo. O que hoje está revestido de cores precisou passar pelo silêncio das sombras. A vida não é por acaso. Ela é fruto do processo que a encaminha sem pressa e sem atropelos a um destino que não finda, porque é ciclo que a faz continuar em insondáveis movimentos de vida e morte. O florido sobre a terra não é acontecimento sem precedências. Antes da flor, a morte da semente, o suspiro dissonante de quem se desprende do que é para ser revestido de outras grandezas. O que hoje vejo e reconheço belo é apenas uma parte do processo. O que eu não pude ver é o que sustenta a beleza.
A arte de morrer em silêncio é atributo que pertence às sementes. A dureza do chão não permite que os nossos olhos alcancem o acontecimento. Antes de ser flor, a primavera é chão escuro de sombras, vida se entregando ao dialético movimento de uma morte anunciada, cumprida em partes.
A primavera só pode ser o que é porque o outono a embalou em seus braços. Outono é o tempo em que as sementes deitam sobre a terra seus destinos de fecundidade. É o tempo em que à morte se entregam, esperançosas de ressurreição. Outono é a maternidade das floradas, dos cantos das cigarras e dos assobios dos ventos. Outono é a preparação das aquarelas, dos trabalhos silenciosos que não causam alardes, mas que, mais tarde, serão fundamentais para o sustento da beleza que há de vir.
São as estações do tempo. São as estações da vida.
Há em nossos dias uma infinidade de cenas que podemos reconhecer a partir da mística dos outonos e das primaveras. Também nós cumprimos em nossa carne humana os mesmos destinos. Destino de morrer em pequenas partes, mediante sacrifícios que nos fazem abraçar o silêncio das sombras…
Destino de florescer costurados em cores, alçados por alegrias que nos caem do céu, quando menos esperadas, anunciando que depois de outonos, a vida sempre nos reserva primaveras…
Floresçamos.”
Padre Fábio de Melo