![136177664[1]](http://ameninadoslivros.files.wordpress.com/2010/12/1361776641.jpg?w=640)
Ana Lúcia Albuquerque, (ou Analú, como as crianças da rua lhe gritavam depois do almoço) era a menina travessa de oito anos, cabelos ruivos desarrumados, umas poucas sardas nas bochechas, olhos verdes e shorts jeans sujos (de subir no muro da vizinha ranzinza atrás da pipa que os meninos disseram que não conseguiria pegar). A vizinha, uma velha viúva, resmungava nomes feios e quem via a cena não desconfiaria de que ela se preocupava tanto se a menina se machucaria nas grades baixas do portão quanto se pisaria nas roseiras que lhe desprendiam tanta dedicação.
Analú devolvia a pipa ao irmão Joca. João Carlos não poderia ser mais oposto a irmã; tinha seis anos, era quieto, silencioso, quase triste, ruivo assim como Analú e de olhos castanhos. Observava sua pipa colorida feita pelo avô dançar no céu quando a mãe de Mariana a chamou para almoçar. Lembrou-se de ir almoçar também e já estava descendo a pipa verde do céu quando a linha arrebentou e ela se prendeu no telhado da vizinha ranzinza. Analú era corajosa e o Pedro havia dito que ela nunca conseguiria recuperar a pipa. Ela conseguiu e voltou pra jogar só mais uma partida de queimada e ele podia ir almoçar na frente. A avó, uma senhora agitada, descendente de holandeses, esperava para o almoço os netos que passavam as férias na sua casa. Já estava tudo limpo e arrumado, a árvore de Natal já guardava os presentes tão esperados que serão abertos a meia noite. A família feliz e barulhenta se reuniria para a ceia de hoje, na casa cuidadosamente enfeitada para as festividades.

Obedecendo a avó, Analú voltou assim que a tarde quente e ensolarada anoiteceu. Tomou banho e colocou o vestido que a mãe escolhera para o Natal, um verde de florzinhas em tons de vermelho e amarelo, um pouco incômodo para a menina tão livre em seus shorts e camisetas. Mas hoje era dia de presentes (a avó explicara a bonita história do nascimento de Jesus hoje no almoço pra ela e pro Joca) e a árvore estava ainda mais cheia! A bicicleta que o Joca pedira “mas não caberia numa caixinha embaixo da árvore”, pensou.
Às dez da noite todos começaram a comer, mas o trato era de só abrir os presentes meia-noite. Um pouco antes, tia Laura chegou com o… Será que é um casaco branco? Bem, estava dobrado no braço e tinha aquele aparelho (que os médicos usam para ouvir o coração) aparecendo no canto da bolsa. Tirou dela dois embrulhos de tamanho médio, um rosa e outro azul, e colocou no canto embaixo da árvore.
Era chegada a hora de abrir os presentes! Analú não acreditava em Papai Noel (fizera o irmão chorar quando disse que era coisa de criança, mas pediu desculpas depois, não fora de propósito), mas estava ansiosa para ver o que havia ganhado. Na caixa com furinhos, colocada bem na hora, estava o gatinha que havia pedido ao pai. Mal podia acreditar! Era pequeno, branco e preto com o nariz rosado. A bicicleta de joça estava na garagem, com um laço de fita enorme. Dentre outros presentes (um quebra-cabeça para que ela e o irmão montem juntos, uma boneca e um livro com uma história cheia de desenhos) estava o de tia Laura: Uma caixinha com várias coisas para ajudar alguém com um machucado de mentirinha. “É um kit de primeiros socorros, Analú. É de brinquedo, mas esse aqui parece de verdade, olha” disse a tia, pegando o aparelho rosa que parecia uma miniatura daquele que tinha na sua bolsa. “Tenta usar!”.
Quando a menina correu para tentar ouvir o coração de seu mais novo bichinho de estimação, nem a tia, nem a mãe e talvez nem a avó imaginaram que aquele gesto iria tão longe.
E nos dias seguintes, Analú não queria mais jogar queimada ou fazer apostas com a molecada da rua: ficava no tapete da sala, fazendo curativos de brincadeirinha e medindo a temperatura de Kiko, seu gatinho.
Sua avó provavelmente teve todas suas dúvidas esclarecidas quando viu na garagem a menina limpando e enfaixando a pata de um filhote de cachorro que as crianças encontraram machucado na calçada. Todas as crianças em volta, olhando a mocinha desajeitada com todos os cuidados com o ferido. Analú tinha para os animais um carinho a mais, comum nas crianças e que costuma adormecer na juventude. Não para Analú! Depois daquele natal, afirmava para quem perguntasse que seria veterinária (tia Laura dissera que seria médica como ela, mas para os bichos). E a menina punha tanta convicção que, terrível como era, por nenhum momento a família pôs em dúvida o que aconteceria.
A menina travessa de cabelos desarrumados e shorts sujos se tornou uma mocinha calma, sorridente e sensata. No dia em que passou no vestibular daquela universidade distante foi uma choradeira só! Até mesmo a senhora não-tão-ranzinza veio em sua casa se despedir. Agora Analú namorava Pedro, que passou em Psicologia na mesma universidade distante.
No consultório da doutora Ana Lúcia Albuquerque, quem chegasse aflito com seu animalzinho doente conseguiria notar o brilho dos olhos verdes da menina Analú e todos os seus cuidados.
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Queridos visitantes, ainda que seja agnóstica, desejo a todos um feliz Natal