Cada pessoa vive ou deveria viver como protagonista de sua vida.

O mundo pode até girar ao redor do Sol, mas o Sol só nasce para aquecer os que vivem, reconfortar os que sofrem e manter no estranho ritmo as coisas da Terra. O que seria de um protagonista sem enredo, coadjuvantes, personagens secundários e um cenário.
A única diferença é que a vida não segue o que foi planejado no script. As pessoas podem planejar o quanto quiserem, mas fogem ao seu alcance as circunstâncias que garantiriam os planos do backstage – e nem sempre elas se lembram disso.

Meio ébrio, caminhava pela noite. Passavam-se das três horas da madrugada e não tinha dinheiro para continuar bebendo. Conhaque estava cada vez mais caro. Caía uma garôa aguada e comum nas noites da cidade e o descrente e desapaixonado ser andava sem procurar se esconder da garôa ou apertar o passo. Marchava.

A conhecera há uma semana, num encontro com amigos. Conversou com a escolhida, predestinada criatura, por algumas horas e algo em seu inconsciente decidiu: Será ela minha coadjuvante! Aquela menina era a atriz que ele queria para encenar ao seu lado no teatro da vida. Parecia feliz, zelosa, carinhosa e compreensiva. Não era exageradamente bonita, mas nem de todo feia. Sua mãe a adoraria como nora e concordaria em como ela seria uma boa mãe para seus netos. Teriam uma vida bonita e seus filhos se orgulhariam deles.Sim, era ela! Só faltava que ela soubesse disso.

Há dois dias atrás da madrugada de hoje, mandou-lhe no celular uma mensagem. Leu e releu as poucas palavras, pensando em que poderia melhorar a frase. A menina tinha uma pronúncia boa, faria maus olhos com qualquer erro gramatical e queria conquistá-la acima de tudo.

Esperou a resposta. Quinze minutos, uma hora, um dia, dois dias. A ansiedade lhe corroía as vísceras.

Na manhã daquele dia, levantou e disse que daria desfecho a situação que o envolvia. Foi para o trabalho maçante, almoçou e contou cada minuto daquele dia como se fossem intermináveis horas que lhe separavam da resposta que teria no fim da tarde. Enfim, ligou. Após vários toques, a chamada caí na caixa postal. Tenta novamente e é atendido.
O que não lhe ocorreu é que a menina possuía, em sua ínfima existência, uma vida para protagonizar. Sonhos, planos, projetos, muitas coisas que se não tivessem em andamento, não teriam tempo de ser vividas. Após os rodeios naturais das mulheres, feitos quando não pretendem decepcionar um coração já decepcionado, a atriz recusa seu papel e deixa o palco.

Durante toda sua vida, as coisas nunca saíram do script. Ele nunca saíra do script, agia sempre como esperassem que ele agisse, controlava seus instintos agressivos, se moldava e se matava dia a dia, repressão após repressão. Hoje, ninguém mais o reprimiria.

Nem hoje nem nunca mais.

Andava lentamente pela madrugada fria e úmida. Já estava morto quando começou a beber. Já estava morto hoje de manhã, ontem de manhã, há muito tempo sua essência se esvaíra; a diferença é que respirava.
Do alto do viaduto, luzes pequenas passavam ágeis de um lado a outro da avenida aos seus pés. Luzes que pequenas, maiores e maiores, o engoliram de uma vez.

Um baque surdo soou no tráfego

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