Category: Estórias


…espera por dias melhores. Dá “Bom Dia” ao motorista do ônibus, ao vigia, à moça do café, às amigas (amigas?) que tomam café todos os dias, antes do trabalho. Enquanto trabalha, distribui dezenas de bons dias, boas tardes. A noite, cansada, deseja boa noite.

E as vezes o Bom Dia segue-se de um “tudo bom?” que invade o espaço. Eu te desejei um bom dia, porque cargas d’água eu tenho que dizer pra você se ele realmente está bom ou não?

Talvez não esteja, mas eu não quero ver. Eu vou maquiar as olheiras, pintar os lábios pálidos, passar saúde artificial nas maçãs do rosto e vou sorrir. Porque ele TEM que ser bom. O dia. Independentemente se estava ou não predestinado pela constelação de Orion ou pelo clima. Ou pelo jogo do domingo. Ou pelo pé do sofá que insiste em se pôr no meu caminho. Ou pelo alarme que tocou e eu desliguei. Ou por qualquer, repito, qualquer outra coisa. Vai ser um bom dia, está sendo um bom dia, foi um bom dia.

Tá, eu queria ter alguém pra conversar sobre isso. Não que eu queira conversar. Eu não quero. Ou quero? Humanos, tão indecisos.

Mas enquanto não resolvo, apenas vou dando um passo, outro, outro, mais outro. Sem olhar muito a paisagem, é pouco o tempo disponível. Não sei quão pouco, mas é pouco.

Se bem que silêncio também acomoda. Começa por graça, sempre precisou falar de tudo com todos e sempre encontrou quem se aproveitasse disso. Encontrou também gente que ouvia, dava conselhos que não eram seguidos e consolava, quando tudo dava obviamente errado. Mas silencia-se. Perdeu o charme e o brilho de responder a pergunta depois do “Tudo Bom?”, que veio depois do “Bom Dia”: “E aí? E as novidades?”.

Nada, tá tudo normal.

É aí que mora o perigo…

E hoje ainda é segunda-feira.

 

Anúncios

Vanilla dreams.

E ela era o sonho norte-americano em forma de adolescente-mulher.

Isabela chegava do trabalho, em um dia qualquer do outono. Notara da rua que a casa estava vazia, como sempre.

Entra e confere a caixa de correspondência. Tem algumas propagandas e umas cartas do banco, provavelmente oferecendo crédito.

O choque térmico do vento gelado da rua e a casa confortavelmente quente a faz tirar o casaco na porta da sala, jogando-o no sofá, ao lado da bolsa. Os sapatos de salto fino ficam aos pés da mesinha de centro.

Solta os cabelos presos em um coque por desfazer. Procura o gato e não o encontra. Deve ter saído, nota a janela entreaberta. Liga o rádio e vai descalça até a cozinha, fazer chá. Os pés finos e brancos tocam o chão de taco com cuidado, com zelo, sentindo a temperatura amena.

Tira para servir-se de chá a xícara de porcelana com desenhos azuis, de um conjunto ganho da avó. Enquanto o chá aquece, o gato laranja enrosca-se nos pés de Isabela. Põe mais ração e serve leite ao bichano.

Toma chá na cozinha e observa o felino beber leite, próximo a pia. A cortina rosa da cozinha estava fechada e, mesmo com o dia nublado, a claridade dava um tom roseado às paredes e aos armários brancos. A música daquela cantora francesa tocava baixinho no ambiente tão familiar.

Morar sozinha provavelmente foi a melhor e mais temida decisão que já tomara. Não casou-se, ainda não fazia faculdade, apenas saiu de casa. Casou-se consigo mesma, como lhe disse uma amiga que saiu da bolha familiar.

Termina a xícara de chá, despe-se e entra no banho. O vapor do chuveiro toma todo o banheiro. Tira o excesso de água dos cabelos e anda com seu roupão vermelho vinho pelo carpete branco da sala.

Observa no sofá a bolsa e o casaco, posto instantes atrás. Eduardo estava para chegar, veriam algum filme juntos. O dia frio estava propício. Vestiu então um vestido de algodão com mangas compridas, confortavelmente antigo. Enquanto penteava os cabelos úmidos, notou o gato adiantar-se em direção a porta da sala.

Ouviu a campainha tocar.

A felicidade morava ali, em algum lugar.

Imagine você

… que existe, dentre os detritos e atritos de uma instituição pública qualquer, pessoas que acreditam no lugar onde trabalham. Poucas, é bem verdade, mas existem. Os que a defendem, como defenderiam uma empresa, um time ou uma religião. Ou uma cor, um perfume.

Como quem defende algo.

Imagine ainda que conheço de longe uma dessas pessoas, uma senhora, e que pra dizer bem a verdade, não faço ideia do que ela faz naquele lugar. Ela poderia ser a melhor em lugares bem melhores do que em uma triste instituição semi-falida, mas não. Ao que tudo indica, ela se conforma com seu perfeccionismo pungente, aflitivo e constante em um lugar onde o caos impera.

Pensei a início que fosse comodismo. Tanto tempo em terras tão inférteis…

Não é comodismo. Ainda há brilho onde eu sei que houveram sonhos. Ainda há vigor.

Talvez estivesse esse tempo todo esperando ser reconhecida, identificada, gratificada por fazer da melhor forma aquilo que todos os outros fazem de qualquer jeito.

Talvez sofresse em silêncio uma inconformação implacável.

E hoje, como quem conversa coisas banais e reclama de coisas banais, eu olhei no fundo dos seus olhos e perguntei, como quem exclama uma indignação que não me pertence:

-O que você tá fazendo aqui?

A resposta foi interrompida pelo tempo e espaço. Mas creio que não havia uma resposta mais concreta do que a que ouvi:

– É um carma.

“Yo no creo en brujas, pero que las hay… las hay.”

Com que frequência?

Ele folheava um livro. Ela, com o fone de ouvido sem ouvir música alguma, mexia aleatoriamente no celular para que ele não dissesse que ela o observava, enquanto ele folheava o livro.

Se ela ouvisse música ao menos não estariam em silêncio.

– Me falaram que você não existe.

– Como assim?

– Falaram que você é, segundo Freud, invenção minha. Uma “projeção”, na verdade.

–  Hmm…

– …

* Fecha o celular e tira uma revista Galileu da bolsa. Folhea-a*

– E o que você acha?

– Eu acho que é mentira. Ou eu sou mesmo muito criativa.

Humores, rumores.

 

E tinha aquele problema com o humor obscuro. Não era problema. Ela paliativo que ela acreditava ser solução. Ria e fazia piadas más de si mesma e dos outros, só pra ver aquele sorriso ou mesmo imaginar aquele sorriso e querer rir junto a ele.

O humor obscuro (porque lhe disseram que era racismo dizer “Humor negro”), o sarcasmo, aquela ironia feia que tinha no olhar… Refúgios. Ter um lado sombrio lhe livrava da idéia de ser perfeita, idéia que lhe dava medo.

Ria na saída de velórios, em missa de sétimo dia e quando foi demitida teve um ataque de risos (além daquela prova em que a fiscal a olhou torto porque a questão de matemática era ridiculamente difícil).

E ela até controlava, segurava a crise de risos até sentir a garganta doer, até que saia de fininho e ia rir no banheiro e com o riso lágrimas e com as lágrimas um desespero desumano.

 

 

“Humanamente lamentável, lamentavelmente humano.”

Antônio Maria

Entre andar e vagar

Andava tão apressadamente pela cidade que quase foi atropelada por um motociclista. Ao passar, o rapaz apontou o semáforo com um homenzinho vermelho brilhando. A pressa era tanta que demorou até a mensagem ser captada: “Tá furando o sinal vermelho, sua anta!”, pensou e talvez até tenha dito. Naquele dia já havia esquecido seu enorme guarda-chuva preto em dois lugares e o relógio não parava nem um minutinho para que pudesse mudar de sapato e tirar aquela bota de salto alto tão inadequada (sim, tinha sapatilhas naquela bolsa exageradamente grande).

Queria pensar! Queria andar de forma tão automática, tão habitual, que pudesse pensar (tinha em si o horrível hábito de falar sozinha e acreditava mesmo que não passaria por caduca, por ser tão nova). Queria pensar em uma pessoa, uma pessoa que a fizesse se sentir bem e a fizesse dizer: vale a pena. E, sem notar, ia jogando essa difícil para várias pessoas até achar uma que se adequasse àquele conjunto de exigências malucas e que as pessoas “avaliadas” nem faziam idéia. Tudo tão subjetivo, tão hipotético… Mas era naquilo que ela queria se trancar enquanto fazia a pé aquele trajeto que demoraria ainda alguns minutos, se não fosse atropelada no caminho. “E ainda dizem que trânsito é coisa de metrópole, tsc tsc…”

O dia estava nublado e garoava de quando em quando. “E se eu adotasse um gato? Era bom chegar em casa e aquele meu gato pidão estar dormindo em cima do meu travesseiro (e daí minha rinite? uns espirros, nada demais!) ou roçando nos meus calcanhares enquanto pegava comida na geladeira. Mas tenho ficado tão pouco tempo em casa e se tiver que pagar os custos do bichano…”.

E queria descansar, mas era tão pouco o tempo! Porque só 24 horas? Sabia o porquê: se colocassem uma hora a mais em nosso dia, nós a venderíamos. Não usaríamos para ser feliz. Não a usaríamos para descansar. Não a usaríamos para os almoços em família ou para assistir um filme com alguém que não se importasse se você comentará durante o filme. Nós a venderíamos ou faríamos dela o que fazemos com todas as outras vinte e tantas horas: correríamos.

Pra onde? Pra onde todos nós corremos tanto? E porque é tão incômodo não estar no meio do frênesi, no meio da multidão que anda apressada sem olhar para os lados, sem notar as nuvens?

E a chuva só incomoda porque dificulta o trajeto de quem vive tão só de trajetos que saem de sei lá onde e vão, provavelmente, a lugar nenhum. No mais, a chuva é encantadora.

Mortos que andam

Meu Deus, os mortos que andam!
Que nos seguem os passos
e não falam.
Aparecem no bar, no teatro, na biblioteca.
Não nos fitam,
não nos interrogam,
não nos cobram nada.
Acompanham, fiscalizam
nosso caminho e jeito de caminhar,
nossa incômoda sensação de estar vivos
e sentir que nos seguem, nos cercam,
imprescritíveis. E não falam.

Carlos Drummond de Andrade

“[…]Embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”  Sara W. Batista

Ana Lúcia Albuquerque, (ou Analú, como as crianças da rua lhe gritavam depois do almoço) era a menina travessa de oito anos, cabelos ruivos desarrumados, umas poucas sardas nas bochechas, olhos verdes e shorts jeans sujos (de subir no muro da vizinha ranzinza atrás da pipa que os meninos disseram que não conseguiria pegar). A vizinha, uma velha viúva, resmungava nomes feios e quem via a cena não desconfiaria de que ela se preocupava tanto se a menina se machucaria nas grades baixas do portão quanto se pisaria nas roseiras que lhe desprendiam tanta dedicação.

Analú devolvia a pipa ao irmão Joca. João Carlos não poderia ser mais oposto a irmã; tinha seis anos, era quieto, silencioso, quase triste, ruivo assim como Analú e de olhos castanhos. Observava sua pipa colorida feita pelo avô dançar no céu quando a mãe de Mariana a chamou para almoçar. Lembrou-se de ir almoçar também e já estava descendo a pipa verde do céu quando a linha arrebentou e ela se prendeu no telhado da vizinha ranzinza. Analú era corajosa e o Pedro havia dito que ela nunca conseguiria recuperar a pipa. Ela conseguiu e voltou pra jogar só mais uma partida de queimada e ele podia ir almoçar na frente. A avó, uma senhora agitada, descendente de holandeses, esperava para o almoço os netos que passavam as férias na sua casa. Já estava tudo limpo e arrumado, a árvore de Natal já guardava os presentes tão esperados que serão abertos a meia noite. A família feliz e barulhenta se reuniria para a ceia de hoje, na casa cuidadosamente enfeitada para as festividades.

Obedecendo a avó, Analú voltou assim que a tarde quente e ensolarada anoiteceu. Tomou banho e colocou o vestido que a mãe escolhera para o Natal, um verde de florzinhas em tons de vermelho e amarelo, um pouco incômodo para a menina tão livre em seus shorts e camisetas. Mas hoje era dia de presentes (a avó explicara a bonita história do nascimento de Jesus hoje no almoço pra ela e pro Joca) e a árvore estava ainda mais cheia! A bicicleta que o Joca pedira “mas não caberia numa caixinha embaixo da árvore”, pensou.

Às dez da noite todos começaram a comer, mas o trato era de só abrir os presentes meia-noite. Um pouco antes, tia Laura chegou com o… Será que é um casaco branco? Bem, estava dobrado no braço e tinha aquele aparelho (que os médicos usam para ouvir o coração) aparecendo no canto da bolsa. Tirou dela dois embrulhos de tamanho médio, um rosa e outro azul, e colocou no canto embaixo da árvore.

Era chegada a hora de abrir os presentes! Analú não acreditava em Papai Noel (fizera o irmão chorar quando disse que era coisa de criança, mas pediu desculpas depois, não fora de propósito), mas estava ansiosa para ver o que havia ganhado. Na caixa com furinhos, colocada bem na hora, estava o gatinha que havia pedido ao pai. Mal podia acreditar! Era pequeno, branco e preto com o nariz rosado. A bicicleta de joça estava na garagem, com um laço de fita enorme. Dentre outros presentes (um quebra-cabeça para que ela e o irmão montem juntos, uma boneca e um livro com uma história cheia de desenhos) estava o de tia Laura: Uma caixinha com várias coisas para ajudar alguém com um machucado de mentirinha. “É um kit de primeiros socorros, Analú. É de brinquedo, mas esse aqui parece de verdade, olha” disse a tia, pegando o aparelho rosa que parecia uma miniatura daquele que tinha na sua bolsa. “Tenta usar!”.

Quando a menina correu para tentar ouvir o coração de seu mais novo bichinho de estimação, nem a tia, nem a mãe e talvez nem a avó imaginaram que aquele gesto iria tão longe.

E nos dias seguintes, Analú não queria mais jogar queimada ou fazer apostas com a molecada da rua: ficava no tapete da sala, fazendo curativos de brincadeirinha e medindo a temperatura de Kiko, seu gatinho.

Sua avó provavelmente teve todas suas dúvidas esclarecidas quando viu na garagem a menina limpando e enfaixando a pata de um filhote de cachorro que as crianças encontraram machucado na calçada. Todas as crianças em volta, olhando a mocinha desajeitada com todos os cuidados com o ferido. Analú tinha para os animais um carinho a mais, comum nas crianças e que costuma adormecer na juventude. Não para Analú! Depois daquele natal, afirmava para quem perguntasse que seria veterinária (tia Laura dissera que seria médica como ela, mas para os bichos). E a menina punha tanta convicção que, terrível como era, por nenhum momento a família pôs em dúvida o que aconteceria.

A menina travessa de cabelos desarrumados e shorts sujos se tornou uma mocinha calma, sorridente e sensata. No dia em que passou no vestibular daquela universidade distante foi uma choradeira só! Até mesmo a senhora não-tão-ranzinza veio em sua casa se despedir. Agora Analú namorava Pedro, que passou em Psicologia na mesma universidade distante.

No consultório da doutora Ana Lúcia Albuquerque, quem chegasse aflito com seu animalzinho doente conseguiria notar o brilho dos olhos verdes da menina Analú e todos os seus cuidados.

****************************************************


Queridos visitantes, ainda que seja agnóstica, desejo a todos um feliz Natal 😀

7:26 – Acordo.

Meu alarme despertaria às 7h e por algum motivo que foge ao meu entendimento, não o fez. Lembro de ter acordado às 6h com o alarme do meu irmão, que está na fase escolar. Mas nada às 7h.

Meus olhos encaram o relógio por alguns segundos. “É preciso levantar, Carolina. Já é dia e você sabe muito bem que se dormir mais cinco minutinhos acordará às 10h”.

Mas manter-se acordada, pela simples necessidade de se manter acordada, não é uma tarefa agradável. Levanto, visto meu vestido e cambalheio relutante até o banheiro.

Minha vontade é simplesmente me jogar na cama e mandar a terça feira pros quintos! “Não, olhe pela janela, está um dia lindo, você está fazendo bem em se levantar. Já já essa vontade passa”.

E nessa luta interna consigo lavar o rosto e escovar os dentes. Algum mecanismo natural que um dia saberei o que é, para me manter acordada, faz meu cérebro funcionar; consigo sentir-me como uma máquina gélida, cujos motores insistem em aquecer para voltar a ativa. E como se me fosse a única forma de me convencer a pensar, me lembrei daquelas recordações que já jurava ter esquecido.

Cheiro de maresia, brisa do mar. Lembro de como grudava nos poros e quando eu saía mais cedo da escola e ia com meus amigos na praia a noite, tinha a impressão de que minha vó, ao me dar boa noite, sentiria o cheiro de brisa dos meus poros. Minha vó; notei que ela já acordou, provavelmente estranhará eu o ter feito. Meu pai, quando era criança e teimava em acordar cedo, simplesmente por acordar cedo, sempre perguntava: – “Ué, o que aconteceu? Caiu da caixinha de brinquedos?”. Se fosse fazer uma analogia hoje, me perguntaria se caí da pilha de livros…

Percebo que já acordei, e ainda que ao voltar no quarto minha cama pareça tentadora, meu dia já começou. E ele não para.

Último ato

Cada pessoa vive ou deveria viver como protagonista de sua vida.

O mundo pode até girar ao redor do Sol, mas o Sol só nasce para aquecer os que vivem, reconfortar os que sofrem e manter no estranho ritmo as coisas da Terra. O que seria de um protagonista sem enredo, coadjuvantes, personagens secundários e um cenário.
A única diferença é que a vida não segue o que foi planejado no script. As pessoas podem planejar o quanto quiserem, mas fogem ao seu alcance as circunstâncias que garantiriam os planos do backstage – e nem sempre elas se lembram disso.

Meio ébrio, caminhava pela noite. Passavam-se das três horas da madrugada e não tinha dinheiro para continuar bebendo. Conhaque estava cada vez mais caro. Caía uma garôa aguada e comum nas noites da cidade e o descrente e desapaixonado ser andava sem procurar se esconder da garôa ou apertar o passo. Marchava.

A conhecera há uma semana, num encontro com amigos. Conversou com a escolhida, predestinada criatura, por algumas horas e algo em seu inconsciente decidiu: Será ela minha coadjuvante! Aquela menina era a atriz que ele queria para encenar ao seu lado no teatro da vida. Parecia feliz, zelosa, carinhosa e compreensiva. Não era exageradamente bonita, mas nem de todo feia. Sua mãe a adoraria como nora e concordaria em como ela seria uma boa mãe para seus netos. Teriam uma vida bonita e seus filhos se orgulhariam deles.Sim, era ela! Só faltava que ela soubesse disso.

Há dois dias atrás da madrugada de hoje, mandou-lhe no celular uma mensagem. Leu e releu as poucas palavras, pensando em que poderia melhorar a frase. A menina tinha uma pronúncia boa, faria maus olhos com qualquer erro gramatical e queria conquistá-la acima de tudo.

Esperou a resposta. Quinze minutos, uma hora, um dia, dois dias. A ansiedade lhe corroía as vísceras.

Na manhã daquele dia, levantou e disse que daria desfecho a situação que o envolvia. Foi para o trabalho maçante, almoçou e contou cada minuto daquele dia como se fossem intermináveis horas que lhe separavam da resposta que teria no fim da tarde. Enfim, ligou. Após vários toques, a chamada caí na caixa postal. Tenta novamente e é atendido.
O que não lhe ocorreu é que a menina possuía, em sua ínfima existência, uma vida para protagonizar. Sonhos, planos, projetos, muitas coisas que se não tivessem em andamento, não teriam tempo de ser vividas. Após os rodeios naturais das mulheres, feitos quando não pretendem decepcionar um coração já decepcionado, a atriz recusa seu papel e deixa o palco.

Durante toda sua vida, as coisas nunca saíram do script. Ele nunca saíra do script, agia sempre como esperassem que ele agisse, controlava seus instintos agressivos, se moldava e se matava dia a dia, repressão após repressão. Hoje, ninguém mais o reprimiria.

Nem hoje nem nunca mais.

Andava lentamente pela madrugada fria e úmida. Já estava morto quando começou a beber. Já estava morto hoje de manhã, ontem de manhã, há muito tempo sua essência se esvaíra; a diferença é que respirava.
Do alto do viaduto, luzes pequenas passavam ágeis de um lado a outro da avenida aos seus pés. Luzes que pequenas, maiores e maiores, o engoliram de uma vez.

Um baque surdo soou no tráfego

Recortes

“Respeitável público, há um engano lamentável : aquele que prometeu era outro e não eu. Isso porque sou vários ou no mínimo dois: aquele que diz, antes, e o que nega,  depois. Minha querida dama, há aí um grave equívoco: quem te amou foi o boneco, eu sou o ventríloquo.” [Sérgio Antunes]