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Humores, rumores.

 

E tinha aquele problema com o humor obscuro. Não era problema. Ela paliativo que ela acreditava ser solução. Ria e fazia piadas más de si mesma e dos outros, só pra ver aquele sorriso ou mesmo imaginar aquele sorriso e querer rir junto a ele.

O humor obscuro (porque lhe disseram que era racismo dizer “Humor negro”), o sarcasmo, aquela ironia feia que tinha no olhar… Refúgios. Ter um lado sombrio lhe livrava da idéia de ser perfeita, idéia que lhe dava medo.

Ria na saída de velórios, em missa de sétimo dia e quando foi demitida teve um ataque de risos (além daquela prova em que a fiscal a olhou torto porque a questão de matemática era ridiculamente difícil).

E ela até controlava, segurava a crise de risos até sentir a garganta doer, até que saia de fininho e ia rir no banheiro e com o riso lágrimas e com as lágrimas um desespero desumano.

 

 

“Humanamente lamentável, lamentavelmente humano.”

Antônio Maria

Ana Lúcia Albuquerque, (ou Analú, como as crianças da rua lhe gritavam depois do almoço) era a menina travessa de oito anos, cabelos ruivos desarrumados, umas poucas sardas nas bochechas, olhos verdes e shorts jeans sujos (de subir no muro da vizinha ranzinza atrás da pipa que os meninos disseram que não conseguiria pegar). A vizinha, uma velha viúva, resmungava nomes feios e quem via a cena não desconfiaria de que ela se preocupava tanto se a menina se machucaria nas grades baixas do portão quanto se pisaria nas roseiras que lhe desprendiam tanta dedicação.

Analú devolvia a pipa ao irmão Joca. João Carlos não poderia ser mais oposto a irmã; tinha seis anos, era quieto, silencioso, quase triste, ruivo assim como Analú e de olhos castanhos. Observava sua pipa colorida feita pelo avô dançar no céu quando a mãe de Mariana a chamou para almoçar. Lembrou-se de ir almoçar também e já estava descendo a pipa verde do céu quando a linha arrebentou e ela se prendeu no telhado da vizinha ranzinza. Analú era corajosa e o Pedro havia dito que ela nunca conseguiria recuperar a pipa. Ela conseguiu e voltou pra jogar só mais uma partida de queimada e ele podia ir almoçar na frente. A avó, uma senhora agitada, descendente de holandeses, esperava para o almoço os netos que passavam as férias na sua casa. Já estava tudo limpo e arrumado, a árvore de Natal já guardava os presentes tão esperados que serão abertos a meia noite. A família feliz e barulhenta se reuniria para a ceia de hoje, na casa cuidadosamente enfeitada para as festividades.

Obedecendo a avó, Analú voltou assim que a tarde quente e ensolarada anoiteceu. Tomou banho e colocou o vestido que a mãe escolhera para o Natal, um verde de florzinhas em tons de vermelho e amarelo, um pouco incômodo para a menina tão livre em seus shorts e camisetas. Mas hoje era dia de presentes (a avó explicara a bonita história do nascimento de Jesus hoje no almoço pra ela e pro Joca) e a árvore estava ainda mais cheia! A bicicleta que o Joca pedira “mas não caberia numa caixinha embaixo da árvore”, pensou.

Às dez da noite todos começaram a comer, mas o trato era de só abrir os presentes meia-noite. Um pouco antes, tia Laura chegou com o… Será que é um casaco branco? Bem, estava dobrado no braço e tinha aquele aparelho (que os médicos usam para ouvir o coração) aparecendo no canto da bolsa. Tirou dela dois embrulhos de tamanho médio, um rosa e outro azul, e colocou no canto embaixo da árvore.

Era chegada a hora de abrir os presentes! Analú não acreditava em Papai Noel (fizera o irmão chorar quando disse que era coisa de criança, mas pediu desculpas depois, não fora de propósito), mas estava ansiosa para ver o que havia ganhado. Na caixa com furinhos, colocada bem na hora, estava o gatinha que havia pedido ao pai. Mal podia acreditar! Era pequeno, branco e preto com o nariz rosado. A bicicleta de joça estava na garagem, com um laço de fita enorme. Dentre outros presentes (um quebra-cabeça para que ela e o irmão montem juntos, uma boneca e um livro com uma história cheia de desenhos) estava o de tia Laura: Uma caixinha com várias coisas para ajudar alguém com um machucado de mentirinha. “É um kit de primeiros socorros, Analú. É de brinquedo, mas esse aqui parece de verdade, olha” disse a tia, pegando o aparelho rosa que parecia uma miniatura daquele que tinha na sua bolsa. “Tenta usar!”.

Quando a menina correu para tentar ouvir o coração de seu mais novo bichinho de estimação, nem a tia, nem a mãe e talvez nem a avó imaginaram que aquele gesto iria tão longe.

E nos dias seguintes, Analú não queria mais jogar queimada ou fazer apostas com a molecada da rua: ficava no tapete da sala, fazendo curativos de brincadeirinha e medindo a temperatura de Kiko, seu gatinho.

Sua avó provavelmente teve todas suas dúvidas esclarecidas quando viu na garagem a menina limpando e enfaixando a pata de um filhote de cachorro que as crianças encontraram machucado na calçada. Todas as crianças em volta, olhando a mocinha desajeitada com todos os cuidados com o ferido. Analú tinha para os animais um carinho a mais, comum nas crianças e que costuma adormecer na juventude. Não para Analú! Depois daquele natal, afirmava para quem perguntasse que seria veterinária (tia Laura dissera que seria médica como ela, mas para os bichos). E a menina punha tanta convicção que, terrível como era, por nenhum momento a família pôs em dúvida o que aconteceria.

A menina travessa de cabelos desarrumados e shorts sujos se tornou uma mocinha calma, sorridente e sensata. No dia em que passou no vestibular daquela universidade distante foi uma choradeira só! Até mesmo a senhora não-tão-ranzinza veio em sua casa se despedir. Agora Analú namorava Pedro, que passou em Psicologia na mesma universidade distante.

No consultório da doutora Ana Lúcia Albuquerque, quem chegasse aflito com seu animalzinho doente conseguiria notar o brilho dos olhos verdes da menina Analú e todos os seus cuidados.

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Queridos visitantes, ainda que seja agnóstica, desejo a todos um feliz Natal 😀

7:26 – Acordo.

Meu alarme despertaria às 7h e por algum motivo que foge ao meu entendimento, não o fez. Lembro de ter acordado às 6h com o alarme do meu irmão, que está na fase escolar. Mas nada às 7h.

Meus olhos encaram o relógio por alguns segundos. “É preciso levantar, Carolina. Já é dia e você sabe muito bem que se dormir mais cinco minutinhos acordará às 10h”.

Mas manter-se acordada, pela simples necessidade de se manter acordada, não é uma tarefa agradável. Levanto, visto meu vestido e cambalheio relutante até o banheiro.

Minha vontade é simplesmente me jogar na cama e mandar a terça feira pros quintos! “Não, olhe pela janela, está um dia lindo, você está fazendo bem em se levantar. Já já essa vontade passa”.

E nessa luta interna consigo lavar o rosto e escovar os dentes. Algum mecanismo natural que um dia saberei o que é, para me manter acordada, faz meu cérebro funcionar; consigo sentir-me como uma máquina gélida, cujos motores insistem em aquecer para voltar a ativa. E como se me fosse a única forma de me convencer a pensar, me lembrei daquelas recordações que já jurava ter esquecido.

Cheiro de maresia, brisa do mar. Lembro de como grudava nos poros e quando eu saía mais cedo da escola e ia com meus amigos na praia a noite, tinha a impressão de que minha vó, ao me dar boa noite, sentiria o cheiro de brisa dos meus poros. Minha vó; notei que ela já acordou, provavelmente estranhará eu o ter feito. Meu pai, quando era criança e teimava em acordar cedo, simplesmente por acordar cedo, sempre perguntava: – “Ué, o que aconteceu? Caiu da caixinha de brinquedos?”. Se fosse fazer uma analogia hoje, me perguntaria se caí da pilha de livros…

Percebo que já acordei, e ainda que ao voltar no quarto minha cama pareça tentadora, meu dia já começou. E ele não para.

Último ato

Cada pessoa vive ou deveria viver como protagonista de sua vida.

O mundo pode até girar ao redor do Sol, mas o Sol só nasce para aquecer os que vivem, reconfortar os que sofrem e manter no estranho ritmo as coisas da Terra. O que seria de um protagonista sem enredo, coadjuvantes, personagens secundários e um cenário.
A única diferença é que a vida não segue o que foi planejado no script. As pessoas podem planejar o quanto quiserem, mas fogem ao seu alcance as circunstâncias que garantiriam os planos do backstage – e nem sempre elas se lembram disso.

Meio ébrio, caminhava pela noite. Passavam-se das três horas da madrugada e não tinha dinheiro para continuar bebendo. Conhaque estava cada vez mais caro. Caía uma garôa aguada e comum nas noites da cidade e o descrente e desapaixonado ser andava sem procurar se esconder da garôa ou apertar o passo. Marchava.

A conhecera há uma semana, num encontro com amigos. Conversou com a escolhida, predestinada criatura, por algumas horas e algo em seu inconsciente decidiu: Será ela minha coadjuvante! Aquela menina era a atriz que ele queria para encenar ao seu lado no teatro da vida. Parecia feliz, zelosa, carinhosa e compreensiva. Não era exageradamente bonita, mas nem de todo feia. Sua mãe a adoraria como nora e concordaria em como ela seria uma boa mãe para seus netos. Teriam uma vida bonita e seus filhos se orgulhariam deles.Sim, era ela! Só faltava que ela soubesse disso.

Há dois dias atrás da madrugada de hoje, mandou-lhe no celular uma mensagem. Leu e releu as poucas palavras, pensando em que poderia melhorar a frase. A menina tinha uma pronúncia boa, faria maus olhos com qualquer erro gramatical e queria conquistá-la acima de tudo.

Esperou a resposta. Quinze minutos, uma hora, um dia, dois dias. A ansiedade lhe corroía as vísceras.

Na manhã daquele dia, levantou e disse que daria desfecho a situação que o envolvia. Foi para o trabalho maçante, almoçou e contou cada minuto daquele dia como se fossem intermináveis horas que lhe separavam da resposta que teria no fim da tarde. Enfim, ligou. Após vários toques, a chamada caí na caixa postal. Tenta novamente e é atendido.
O que não lhe ocorreu é que a menina possuía, em sua ínfima existência, uma vida para protagonizar. Sonhos, planos, projetos, muitas coisas que se não tivessem em andamento, não teriam tempo de ser vividas. Após os rodeios naturais das mulheres, feitos quando não pretendem decepcionar um coração já decepcionado, a atriz recusa seu papel e deixa o palco.

Durante toda sua vida, as coisas nunca saíram do script. Ele nunca saíra do script, agia sempre como esperassem que ele agisse, controlava seus instintos agressivos, se moldava e se matava dia a dia, repressão após repressão. Hoje, ninguém mais o reprimiria.

Nem hoje nem nunca mais.

Andava lentamente pela madrugada fria e úmida. Já estava morto quando começou a beber. Já estava morto hoje de manhã, ontem de manhã, há muito tempo sua essência se esvaíra; a diferença é que respirava.
Do alto do viaduto, luzes pequenas passavam ágeis de um lado a outro da avenida aos seus pés. Luzes que pequenas, maiores e maiores, o engoliram de uma vez.

Um baque surdo soou no tráfego