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…espera por dias melhores. Dá “Bom Dia” ao motorista do ônibus, ao vigia, à moça do café, às amigas (amigas?) que tomam café todos os dias, antes do trabalho. Enquanto trabalha, distribui dezenas de bons dias, boas tardes. A noite, cansada, deseja boa noite.

E as vezes o Bom Dia segue-se de um “tudo bom?” que invade o espaço. Eu te desejei um bom dia, porque cargas d’água eu tenho que dizer pra você se ele realmente está bom ou não?

Talvez não esteja, mas eu não quero ver. Eu vou maquiar as olheiras, pintar os lábios pálidos, passar saúde artificial nas maçãs do rosto e vou sorrir. Porque ele TEM que ser bom. O dia. Independentemente se estava ou não predestinado pela constelação de Orion ou pelo clima. Ou pelo jogo do domingo. Ou pelo pé do sofá que insiste em se pôr no meu caminho. Ou pelo alarme que tocou e eu desliguei. Ou por qualquer, repito, qualquer outra coisa. Vai ser um bom dia, está sendo um bom dia, foi um bom dia.

Tá, eu queria ter alguém pra conversar sobre isso. Não que eu queira conversar. Eu não quero. Ou quero? Humanos, tão indecisos.

Mas enquanto não resolvo, apenas vou dando um passo, outro, outro, mais outro. Sem olhar muito a paisagem, é pouco o tempo disponível. Não sei quão pouco, mas é pouco.

Se bem que silêncio também acomoda. Começa por graça, sempre precisou falar de tudo com todos e sempre encontrou quem se aproveitasse disso. Encontrou também gente que ouvia, dava conselhos que não eram seguidos e consolava, quando tudo dava obviamente errado. Mas silencia-se. Perdeu o charme e o brilho de responder a pergunta depois do “Tudo Bom?”, que veio depois do “Bom Dia”: “E aí? E as novidades?”.

Nada, tá tudo normal.

É aí que mora o perigo…

E hoje ainda é segunda-feira.

 

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Imagine você

… que existe, dentre os detritos e atritos de uma instituição pública qualquer, pessoas que acreditam no lugar onde trabalham. Poucas, é bem verdade, mas existem. Os que a defendem, como defenderiam uma empresa, um time ou uma religião. Ou uma cor, um perfume.

Como quem defende algo.

Imagine ainda que conheço de longe uma dessas pessoas, uma senhora, e que pra dizer bem a verdade, não faço ideia do que ela faz naquele lugar. Ela poderia ser a melhor em lugares bem melhores do que em uma triste instituição semi-falida, mas não. Ao que tudo indica, ela se conforma com seu perfeccionismo pungente, aflitivo e constante em um lugar onde o caos impera.

Pensei a início que fosse comodismo. Tanto tempo em terras tão inférteis…

Não é comodismo. Ainda há brilho onde eu sei que houveram sonhos. Ainda há vigor.

Talvez estivesse esse tempo todo esperando ser reconhecida, identificada, gratificada por fazer da melhor forma aquilo que todos os outros fazem de qualquer jeito.

Talvez sofresse em silêncio uma inconformação implacável.

E hoje, como quem conversa coisas banais e reclama de coisas banais, eu olhei no fundo dos seus olhos e perguntei, como quem exclama uma indignação que não me pertence:

-O que você tá fazendo aqui?

A resposta foi interrompida pelo tempo e espaço. Mas creio que não havia uma resposta mais concreta do que a que ouvi:

– É um carma.

“Yo no creo en brujas, pero que las hay… las hay.”

Humores, rumores.

 

E tinha aquele problema com o humor obscuro. Não era problema. Ela paliativo que ela acreditava ser solução. Ria e fazia piadas más de si mesma e dos outros, só pra ver aquele sorriso ou mesmo imaginar aquele sorriso e querer rir junto a ele.

O humor obscuro (porque lhe disseram que era racismo dizer “Humor negro”), o sarcasmo, aquela ironia feia que tinha no olhar… Refúgios. Ter um lado sombrio lhe livrava da idéia de ser perfeita, idéia que lhe dava medo.

Ria na saída de velórios, em missa de sétimo dia e quando foi demitida teve um ataque de risos (além daquela prova em que a fiscal a olhou torto porque a questão de matemática era ridiculamente difícil).

E ela até controlava, segurava a crise de risos até sentir a garganta doer, até que saia de fininho e ia rir no banheiro e com o riso lágrimas e com as lágrimas um desespero desumano.

 

 

“Humanamente lamentável, lamentavelmente humano.”

Antônio Maria